25/02/2014

A libertação de Bernardo

Bernardo entrou no seu quarto. Deitou na cama. Levantou-se. Passeou pelo quarto pensando no que faria. Não que fosse tímido, mas medroso. Tinha medo dos seus sentimentos, tinha medo de expô-los, de estar enganado, de fantasiar uma realidade que não existia, mas aqueles sentimentos bons já estavam o machucando, deixando-o louco, sonhando com um futuro que só existia na sua cabeça, ou melhor, no seu coração.
Andou mais um pouco em um vai e vem apressado pelo quarto. Até que nessas voltas parou e olhou para a escrivaninha de madeira que ficava na frente da janela que tinha a vista para o jardim. A escrivaninha não era nova, no entanto era conservada, com duas gavetas na lateral, um punhado de canetas dentro de um baldinho de alumínio azul, uma luminária branca e umas cinco a seis folhas brancas sobre a mesma. Bernardo fitou aquelas folhas, aquelas canetas por um tempo. Não possuía a coragem suficiente para dizer os sentimentos que movia a sua vida por aqueles meses, então decidiu que usaria da escrita para livra-se daquelas alegrias-dores e assim poder olhar para o futuro e para um novo que precisava chegar. 
Então puxou a cadeira. Pegou uma caneta azul. Encarou a folha limpa, branca e imaculada e não sabia por onde começar. Qual seria a melhor palavra para iniciar uma libertação? 
Posicionou a caneta, tinha tanta coisa para pôr naquele papel, porém se questionava onde se iniciará aquele amor. Decidiu colocar uma música para abri as portas do seu coração, ordenar seus sentimentos e expor a sua alma. Pegou seu celular e os fones de ouvido. Selecionou algumas músicas que tinham em seus arranjos muitos instrumentos de sopro, ele gostava do som que o vento fazia ao ser controlado nas saídas desses instrumentos e principalmente escolheu canções que conseguiam traduzir todas as alegrias-dores, criando uma playlist nomeada de liberdade. A primeira música foi a que marcou o iniciou de tudo aquilo que hoje ele vivia. Falava das batidas do coração, do observar o caminhar, dos sorrisos que roubam palavras, da presença marcante da pessoa que você gosta. Traduzia muito bem os primeiros sentimentos despertados dentro da alma de Bernardo. Pegou novamente a caneta, olhou para o jardim, naquele dia de outono, com muitas folhas ao chão, formando um belo tapete amarelo e laranja. Existia uma brisa suave que podia senti na pequena abertura de sua janela e contemplava a delicadeza com que ela retirava as folhas dos galhos da cerejeira. Refletia como era natural o recomeço na existência terrena. Como era normal cair, como era normal morrer para que uma nova vida surja e um novo tempo se inicie. 
Olhou o papel a sua frente e ao observar tudo aquilo ao som do controle do vento pelos instrumentos de sopro eis que dentro dele sentimentos de liberdade e recomeço começavam a acelerar seu coração no mesmo ritmo da canção que escutava. A alma agora já sabia o que dizer. A coragem que até então era ausente começa a impulsiona-lo a ter atitude e controle sobre o seu destino.  Trocou a caneta azul por uma caneta preta no modelo bico de pena, amassou a folha em suas mãos e a abriu novamente esticando-a sobre a escrivaninha, agora cheia de curvas, marcas e elevações. E sim. Agora Bernardo já sabia como começar, ou melhor ainda, já sabia como terminar.


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